September 27, 2009
Montando o quebra-cabeças
August 18, 2009
Narrativas
Eu passei alguns meses fazendo a tradução de uma tese de doutorado em arquitetura e foi uma coisa envolvente. Sei que estou gostando de um texto quando eu me pego pensando em preceitos dele e adaptando aos meus, amalgamando às minhas ideias as ideias alheias.
O texto da tese falava sobre a arquitetura de Brasília e suas narrativas arquitetônicas. Como assim, narrativas? Bem, na configuração da cidade existiram, basicamente, duas narrativas que definiram a cidade como ela é hoje. Existia o projeto original, registrado e solidificado em papel; depois dele, vieram as interferências das pessoas que se instalaram na cidade. Por mais que se saiba qual era a ideia do projeto original, não há como negar ou desfazer as interferências, que passam a fazer parte da cidade e de sua identidade.
De forma semelhante, acho que é isso que ocorre com a imagem que apresentamos ao mundo. Todos temos um projeto original, que é a ideia que fazemos de nós mesmos. E as interferências são as relações que entravamos com os outros, que nos alteram e mudam o rumo do projeto original que tínhamos para nós mesmos.
Esse projeto original é a forma em que você, como autor, definiu as características do seu personagem principal. A sua postura com relação às interferências é a coerência que você terá com esse personagem. Ele pode, sim, agir de forma incoerente e inesperada na história que se escreve, mas será que isso não fere a estrutura principal do personagem? Como você se verá como autor ferindo a coerência do que você elaborou, mesmo que em nome da integridade da criação?
Eu me vejo nesse tipo de dilema o tempo todo. Não sei se mantenho a coerência, se me atenho ao projeto original, que fora pensado com muito cuidado e atentando aos detalhes... Ou se deixo as interferências tomarem algum espaço em nome da integridade do personagem, para que a cidade não se torne uma cidade-fantasma.
July 19, 2009
Nada de novo
Daí que de repente me dá vontade de escrever. Escrever sem parar. Meio que numa explosão. Não de sinceridade, não uma explosão de verdades, só um escape. Queria dizer que estou enjoado. Das coisas que as pessoas fazem. Das coisas que as pessoas dizem. Que tudo que elas fazem e dizem me soam como extremamente previsíveis, ainda que eu não espere isso delas. E não de pessoas em quem eu confio, apenas... Pessoas. Qualquer um. Que elas são defeituosas em tudo que fazem. Que tudo que elas expressam é um monte de merda. Não porque a merda feda, mas porque a merda é algo que sai das pessoas sem que elas ponham muita intenção, muito esforço nisso. Parece que não há qualquer planejamento nas coisas humanas, que tudo que é feito tem sucesso ou falha por acaso. Que as coisas humanas são demasiadamente defeituosas. As máquinas também são defeituosas, porque são feitas por humanos, como o monitor que estou usando, que vive falhando. E os sentimentos humanos, defeituosos demais, vivem falhando, vivem desviando de seu caminho. Eu estou cansado das coisas humanas. Estou cansado dos escritores, que tanto admirava por acreditar que eles, sim, tinham um planejamento, que tinham um caminho diferenciado. Não, eles são humanos e o que eles fazem é, no fim das contas, um monte de merda previsível. Babacas. Tenho medo de conhecer a fundo qualquer um não por medo da decepção... Tenho medo de confirmar que as pessoas são humanas e, intrinsicamente, babacas. Vejo as pessoas expressarem seus sentimentos e opiniões e, nossa, quanta merda. Tudo que você faz é um monte de merda, ainda que contribua para outras pessoas fazerem algo em cima disso. Estou desgostoso com tudo que é humano. Eu... gostaria de ser um pouco mais humano do que isso.
July 03, 2009
A vida por contrastes
As ruas cheias de carros, mas não há movimento.
Os prédios cheios de luzes acesas, mas não há som vindo das janelas.
Há vida ao redor. Sim, há vida. Mas ela não se pronuncia. É quase uma questão de fé acreditar que há vida neste prédio, nesta quadra, nesta cidade.
O dia a dia deveria ter mais desses momentos. É uma ausência que me dá a pausa que preciso para pensar na presença das pessoas. Que me faz valorizá-las. De que me vale toda a música se não há silêncio para contrastar?
Shh.
May 21, 2009
Paz de espírito
Engraçado como eu passei a me preocupar menos com detalhes e ainda menos com grandes objetivos. Alguns diriam que não tenho metas na vida, e dependendo do momento até concordo com essas pessoas. Mas isso não me agonia. Nada paga a paz de espírito de que gozo no momento.
Se eu tivesse alguma meta a atingir, certamente ficaria contrariado e angustiado quando algo se interposse entre mim e tal meta. Isso seria motivo de ansiedade, isso me faria me debelar contra o que seja que estivesse me atrapalhando.
Abandonar as pequenas neuroses se tornou mais fácil depois disso. Se não tenho ambições de um caminho a ser trilhado, que me importam as pequenas pedras que surgem no caminho? O único hábito que não consigo abandonar é o de observar as pessoas, prestar atenção no que elas falam, seus trejeitos, suas preferências, seus sonhos. Fico entusiasmado quando encontro interesses e implicâncias em comum. Aprofundando no máximo que permite aquele contato social ali. Acho que se fosse além disso, me envolveria demais para conseguir manter o desprendimento.
Eu não conseguia pensar em um fechamento pra esse texto e acho que era pra ser assim mesmo.
August 10, 2008
As coisas que descubro sobre meu pai
Ontem dei a meu pai um presente simbólico, algo a que desconfiava que ele não daria a mínima importância. E ele gostou. Identificou-se. E serviu, sobretudo, para que eu descobrisse algo sobre ele. Algo que tentara descobrir muito tempo atrás e que já havia desistido de entender.
Creio que preciso elaborar. O presente que dei a meu pai foi a trilogia Amici Miei Atos I, II e III (em português, Meus Caros Amigos). Assistimos o primeiro, por sugestão minha. São excelentes comédias tipicamente italianas, com deboche irreverente e transgressor aos preceitos mais sagrados do convívio em sociedade sejam eles a fidelidade conjugal, a religião e até mesmo a morte.
Em uma das cenas, uma das personagens debocha do próprio filho, desafiando sua seriedade e sisudez. Nessa cena, meu pai se viu na própria pele da personagem, por associar seus próprios filhos ao filho ali em cena, incrédulo e desapontado com o comportamento do pai.
Meu pai já teve sua cota de provações na vida e, no entanto, não a encara de forma amarga ou séria demais. Pelo contrário, quer aproveitá-la da maneira que lhe apraz sem restrições. Ele assim como alguns de seus grandes amigos debocha de quem encara a vida sem perceber o humor intríseco às situações. Ele pode até se preocupar, mas não externa isso.
Vejo-me agora em um papel diferente do de Paul Auster, que em seu livro The Invention of Solitude transformou a morte de seu pai na sua busca pela pessoa por trás da figura impávida e emocionalmente inacessível, como descrito no trecho a seguir:
Devoid of passion, either for a thing, a person, or an idea, incapable or unwilling to reveal himself under any circumstances, he had managed to keep himself at a distance from life, to avoid immersion in the quick of things. He ate, he went to work, he had friends, he played tennis, and yet for all that he was not there. In the deepest, most unalterable sense, he was an invisible man. Invisible to others, and most likely invisible to himself as well. If, while he was alive, I kept looking for him, kept trying to find the father who was not there, now that he is dead I still feel as though I must go on looking for him.
Eu não tenho mais essa busca. Não porque tenha descoberto a pessoa por trás da persona apresentada a seus filhos, seus familiares e à sociedade como um todo. Não tenho para mim mais essa busca porque entendo que toda tentativa de encontrá-lo será encarada com deboche. Ao invés de tirá-lo de trás de sua redoma, do palco de onde ele encena seu ato lúdico, o melhor que faço é juntar-me a ele na gozação daqueles que levam a vida a sério demais. Sei que ele está ali, inacessível, pois ele assim o quis. Isso é o mais próximo a que posso chegar ser seu amigo de cena.
July 11, 2008
Analisando minha auto-análise
A melhor coisa que fiz com relação à minha auto-análise foi nivelar a persona do meu observador interno com a persona que apresento aos outros, nos meios sociais e nos relacionamentos. Assim, sou tolerante com os defeitos próprios o mesmo tanto que sou com os defeitos alheios, bem como aprecio (antes de mais nada, reconheço) os dons próprios à mesma extensão que aprecio os dons dos outros.
A única cobrança que faço de mim mesmo que não faço dos outros é em relação à paciência. Sempre exerci minha paciência com todos e sempre espero ter mais paciência, apesar de não cobrar uma paciência muito grande de outras pessoas -- pelo contrário, tendo a agir como se ninguém tivesse paciência alguma, como se eu roubasse (e acumulasse) a paciência de todos.
De modo geral, sei que tenho minhas falhas e parei de me massacrar por isso. Sei que são elas que me afastam das e magoam as pessoas com quem convivo, mas reconheço minha própria natureza e sua intrínseca imutabilidade. Também aprendi a exercer minha paciência comigo mesmo.
July 02, 2008
O colecionador
O hábito de associar nossas vidas a uma obra é algo recorrente e saudável. Creio que estabelece uma perspectiva sobre nossas ações e sobre como elas afetam as pessoas a nosso redor. É um artifício a que recorro com freqüência para entender as pessoas e as relações ente elas -- e, principalmente, a mim mesmo.
Nos últimos tempos, me dei conta de um hábito que cultivo desde minhas primeiras memórias. Tal como Jonathan Safran Foer, personagem de Elijah Wood no filme Everything Is Illuminated, sou um ávido colecionador. Venho há anos colecionando coisas, todo tipo de coisa, catalogando-as e organizando-as. Afastei-me tanto do objetivo da coleção, por tanto que me concentrei em apenas colecionar, que não sei com certeza qual era ele.
Da mesma forma, Jonathan coleciona todas as coisas que passam por seu caminho. Talvez por medo de perder uma lembrança. Medo de não dar importância a algo que poderia vir a ser, no futuro, uma peça importante nas memórias de sua vida. Por isso ele guarda tudo que lhe aparece -- para lembrar, para preservar. Mas no fim das contas, não foi ele que construiu suas memórias, e sim a pessoa que decidiu escrever sobre sua jornada e, conseqüentemente, sobre ele.
Contudo, diferente de Jonathan, eu não tenho uma jornada. Eu não estou construindo uma memória. Eu não tenho lições a passar (pelo menos nenhuma que eu considere relevante passar a alguém de uma forma que vá mudar-lhe a vida). Quando penso nisso, vejo o quão fútil é minha coleção. Eu deveria fazer algo dessa coleção, mas não tenho qualquer ligação afetiva profunda e significativa com nenhum objeto de minhas coleções.
Tenho medo de, ao interromper o que sempre fiz, ficar sem objetivos. Ainda que menores, creio que seja saudável se manter alguns objetivos. Sigo colecionando, catalogando, organizando. Uma hora isso vai fazer sentido para algo maior. Assim espero. Como convergirei a necessidade de fazer algo com minha relutância em não ser notado ainda permanece uma incógnita.
May 26, 2008
A vida só acontece entre um pensamento e outro
Se você não der grande importância aos detalhes, você segue sua vida numa boa. Você se relaciona com todos numa boa, você estabelece laços e os mantém, você entra em um relacionamento e permanece nele até onde der. Você casa, se convir aos dois.
O problema é quando você se dedica a examinar os detalhes das coisas. Você percebe que aquele celular que foi barato à época da compra tem algum defeito de design que você não consegue deixar de perceber toda vez que olha pra ele. Você começa a pesar as coisas que faz por um certo amigo e o que esse amigo faz por você, e se dá conta de que talvez ele não se dedique tanto à amizade quanto você. Ainda que sejam coisas factuais, elas não o impediriam de continuar vivendo sua vida, fazendo suas coisas como sempre fez. O problema só passou a existir porque você se dedicou a analisar as coisas.
Da mesma forma, se você não analisar cada aspecto da sua relação, as pequenas coisas não viram grandes problemas. Você não se importa com alguma indelicadeza, você não se importa com o fato de o outro não gostar de algum filme ou música que você gosta. Você nem nota que o outro disse algo com que você não concorda. E como as pessoas não tendem a defender ferrenhamente suas opiniões sobre coisas simples, muitas incompatibilidades passam despercebidas. Você se lembra do outro com bons sentimentos, com vontade de tê-lo por perto. Você se arrisca a tomar o próximo passo no relacionamento.
Tudo isso só parece ser possível se você não perder tempo minuciando tudo na vida. Para viver, não se pode pensar muito.
April 18, 2008
Não muito bem
Eu não estou muito bem.
E do alto do meu egoísmo, sei que não deveria estar dizendo isso. Objetivamente, não há nada de errado com minha vida. Tenho um bom emprego, trabalho com algo de que gosto, sou competente no que faço, vivo confortavelmente.
Inclusive, se você me perguntar -- em pessoa ou em conversa por qualquer meio que seja --, eu vou dizer que está tudo bem comigo.
O problema é quando eu paro para analisar minha vida (e eu faço muito isso). Não tenho certeza o que é, se é uma eterna vontade de automelhoramento, uma falta de acomodação, um senso de perfeccionismo, uma falta de serotonina. Quando estou sozinho em casa (todas as noites da semana, praticamente), começo a pensar em aspectos da minha vida que não me satisfazem.
Começo a ver que talvez eu tenha me tornado uma pessoa... vazia. Não consigo identificar um grande objetivo que eu esteja tentando atingir. É como se o único sentido em estar vivo fosse continuar vivendo, sem grandes realizações. Eu já tive uma banda, na qual eu tocava bateria. Por desavenças musicais e, em certo ponto, pessoais, eu tive que me afastar da banda. Aproveitei esse afastamento para me desligar da única forma de extravasamento artístico que eu tinha. “Por quê?”, poder-se-ia questionar. Eu... não sei. Talvez eu não quisesse mais me expressar dessa forma, talvez eu não queira me expressar de forma alguma. Outras ambições que eu tenho (ou tinha?) me parecem um tanto irrealistas e inconcretizáveis e, por isso, não saem do plano dos sonhos e fantasias.
Além disso, não sinto uma grande alegria ou empolgação em estar com alguém. É como se as decepções tivessem me anestesiado para que eu não sinta mais dor, e como conseqüência eu não sinto mais nada (e nem tomo antidepressivos ou qualquer outro tipo de psicotrópico, o que justificaria essa apatia). Terei me tornado... um robô? Até chatterbots têm consciência de que são um programa, ou seja, têm ciência de sua própria condição, o que me coloca em posição de equivalência a tal. Ser auto-analítico não faz de mim um ser humano. Seres humanos se emocionam, choram, têm objetivos (que não foram inseridos por outrem), sentem. Eu... não. Eu me sinto relativamente confortável em minha solidão/isolamento. Eu me compadeço do sofrimento alheio, mas há momentos que essa reação me parece... programada, aprendida, e não realmente sentida.
Talvez, ser humano não seja uma condição espontânea e absoluta. Isso tem me parecido ser fruto de certo trabalho, trabalho que pode ser mais fácil para uns que para outros.
Talvez eu não (ou nunca) me esforce o bastante.
April 16, 2008
Soulless, loveless?
I think I lost my soul at work. I don't dream anymore. Maybe I never had a soul all along. How could I miss something I never had? It's an appalling emptiness. I always dread I'm too serious for other people to hang around with, so I cut it off with some punchline, like it was a joke all along.
But not today.
The reason I have the impression of not having a soul, is that I can't feel love from within. For me, love comes rather from chemical reactions in my body. If I leave it alone for a while, it goes away. Like a headache. But then again, maybe I've never really felt/had/experienced love, so that's why I underrate it so much. This used to freak me out, leave me desperate for an answer.
But not anymore.
Nowadays, I just lay quiet for a while. It goes away. Like a headache.
March 14, 2008
The Lost Art of Letting Go
É tão estranho considerar desapego um dom. Do ponto de vista de quem tem, é a sensação de nunca sentir nada. Desapego de coisas materiais. Desapego de pessoas. Desapego da vida. Tudo isso soa como alguém que está morto por dentro, alguém que não se emociona de verdade com nada, alguém que está sempre atuando porque acha que aquela é a reação esperada de uma pessoa normal naquela condição. Porque uma pessoa assim não tem medo de perder nada. Nem ninguém. Não tem laços.
Ainda não consigo definir se é mais inumano outras pessoas perceberem alguém nessa condição ou se é uma pessoa viver essa realidade.
December 24, 2007
Wandering away
It’s annoying how much I change over time. Change takes place inevitably when I’m alone. Loneliness is uncomfortable, but solitude is intrinsic to my being. It’s not a matter of “if you leave me alone, I’ll change.” It is due no matter what. I need solitude and I’ll have it whenever I need it. I can easily shut myself from the outside world wherever I am, in order to wander in the world of my thoughts.
I have come to realize that people do not come and go into my life. It is I that part from them, because of my taking different paths. ‘Tis the way it has been with everyone who’s become somehow dear and close to me. I had a selfish, misled opinion that other people did not care enough about me to stay close, but now I see how hard it is to stay close to a nonstop nomad. How can one stay close to a person one can’t even find (not in geographical terms, but in terms of state of spirit and mind)?
So there it is, this is why I can’t hold on to people; they’re like sand in my hands--or maybe I’m like sand in their hands, always escaping between their fingers, grain by grain. I get to see them leave, while they get to see me live. Every single friend for whom my heart once ached didn’t actually break it; ‘twas merely the ripping of bonds that took place when I changed and wandered away. Maybe sometime I’ll see one accompany me in the course of my path. Maybe this time. I can only hope, for the loneliness I can cope.
September 24, 2007
A vida não se repete
Uma noite agradável é palco para as maiores agruras que se pode vivenciar, sem que ela ao menos soubesse. Ela fala de coisas que me despertam os maiores arrepios, uma inevitável sensação de déjàvu.
Revivencio em momentos os fatos que me despertaram o desconforto originalmente, comparando-os com o que me ocorre neste exato momento. Deixo-a falar como se não me incomodasse. Incomoda?
Analiso bem. Em tudo que ela diz, há semelhanças com fatos passados que foram a origem de agruras. Tenho vontade de fugir, de correr, de calar sua boca. No entanto, em vez de detê-la, eu me detenho, me abstenho de comentar o que passa em minha cabeça.
Neste momento, volto o olhar para mim mesmo. Por trás do terror causado, há uma marca que não existe mais, que não faz mais sentido no contexto atual. O paradoxo a faz desaparecer. A calma se instala. Acendo um cigarro, tomo mais um gole. E continuo ouvindo.
August 22, 2007
Olheiras
Faz dois dias que estou com olheiras. Eu nunca tive olheiras antes, mesmo quando dormia três, quatro horas por noite. Nas duas últimas noites, dormi seis horas de sono. Tive dificuldade de pegar no sono, fiquei na cama deitado por uma hora, uma hora e meia, duas horas sem conseguir adormecer. Fazia frio e o lençol não me protegia. Não queria fechar a janela para não fazer barulho. O frio incomodava e, talvez, me impedia de dormir. Eu me revirava bastante procurando uma posição confortável que me permitisse dormir. Tenho espaço para isso agora, não tem ninguém com quem dividir uma cama de casal. Sempre sonhara com isso, e agora já não tem tanta graça. O frio é mais intenso quando só se tem o próprio corpo como fonte de calor, e eu ando sem energia para gerar calor. Ando gastando energia demais com coisas inúteis. Em um desses dias, me apaixonei, só para desapaixonar ao fim do dia. Perguntei-me por que o equivalente em inglês para 'apaixonar' é 'fall in love' e 'desapaixonar' é 'fall out of love'. Por que tem que implicar queda? Curioso. Sendo assim, o oposto deveria ser 'climb out of love'. Amor é acidente? Sim. Não controlamos nem podemos prever. De qualquer forma, desapaixonei porque percebi que minha presença não era importante para você. Sua felicidade não depende disso. Nem a sua. Ou a sua. Minha existência não é condicional para a felicidade de ninguém além da minha família, meu porto seguro. Minha base. Mesmo longe deles, tanto emocionalmente quanto fisicamente, sei que posso contar com eles. No entanto, continuo tentando contar com outras pessoas, mas descubro que não posso contar. Com você. Ou com você. Ou você. Pelo menos não da forma que gostaria. Ou mesmo para uma conversa sincera e profunda, não as trivialidades que eu trago para o papo, para maquiar o silêncio. Mesmo querendo o silêncio no lugar dessas palavras vazias. Lembrei disso e me calei, para ver se isso a incomodaria. Não incomodou. Deve ter sido um alívio para você. E você. E você. Vou pegar um copo d'água, me dirigi à varanda. Fazia frio, mas mesmo assim me sentei ali, com as luzes apagadas. Todas as luzes do prédio em frente estavam apagadas, todos dormindo. Só eu fico acordado a essa hora? E para que, no fim das contas? Eu devia dormir cedo, acordar cedo, aproveitar o dia. No mesmo momento, me pergunto: "Pra quê?" Pensei em quanto tempo de um sumiço meu seria necessário para você se perguntar onde eu estaria. Cheguei à conclusão que eu poderia morrer e você não saberia, tampouco iria sentir falta. Você também não. E você. Eu sempre fui discreto e calado, uma combinação perfeita para a existência de um fantasma, alguém que não está lá. Alguém que passa despercebido, como o bom tradutor que deixa o autor falar por ele na outra língua. Penso em como não gosto de chamar a atenção e em como isso conflita com o fato de eu, por vezes, querer um pouco de atenção. Faz frio. Melhor voltar pra dentro, tentar dormir. Talvez se eu me enrolar no lençol o frio passe. Lembro de tomar o anti-inflamatório para a garganta. A garganta já está boa, por que continuo tomando o remédio? Só para acabar a caixa? Acho que o anti-inflamatório tem algo a ver com minhas olheiras. Nunca tive olheiras. E talvez com a insônia também. Afinal, não estou mais apaixonado por você. Nem por você. Ou por você. Ao fim do dia, me desapaixonei. Melhor parar com o remédio. Melhor parar.